quarta-feira, 21 de junho de 2017

A VISITA DE LILITH



Em meio ao árido deserto, circundado pela abóboda celeste, onde nada havia senão minhas angústias errantes, apareceu o nobre vulto, como um oásis em oferenda.

Os longos cabelos, o expressivo olhar, e os sussurros pronunciados de seus doces lábios, ofertavam-me, em suaves melodias, alívios a minhas tormentas ressequidas, acordando-me da dolorosa letargia.

Sob o tórrido sol, um novo amanhecer se despontava no côncavo de meu ser.

Cegado pela exuberante beleza e candura, tomei sua cabeça em meu peito, então senti, em seus suspiros, a vida que entrava umedecendo minhas entranhas com sonhos impossíveis.

Ainda assim, em êxtase, ousei ter mais que um delírio da alienação passageira, queria os tesouros enterrados em sua alma, inadvertido de que uma dor ainda maior me invadiria por completo.

Violando seus segredos, contemplei todos os seus encantos, e desvirginei todos os seus abismos confinados.

Egoisticamente, quis tomá-los para mim, em se insaciável, constrangendo sua boa-fé com ondas sôfregas de amor e desejo que se me emergiam.

Despudoradamente, levei-a a seu pior pesadelo quando meu corpo se enlaçou ao seu.

Dos beijos perniciosos que lhe tocavam como açoites severos à sua sublime oferta, deitei-a na devastada terra onde ousou adentrar, colocando-me entre suas pernas, com movimentos que a sufocavam com desejos antes contidos.

A singeleza, despertada em seus instintos reprimidos, convulsionava-se em prazeres libidinosos. Seus olhos brilhavam ao me contemplar acima, fechando-lhe todo o resto da visão, como que a implorar que não lhe fizesse causasse tamanho defloramento, enquanto se contorcia em orgasmos múltiplos, sob minhas juras de amor eterno.

Ao levantar, suas costas continham a terra sobre a qual se deitara, como que se a tórrida e infecunda terra também a quisesse possuir.

Sem palavras, exaustos e transpirados, tinha-lhe imposto uma comunhão arrebatadora como dolorosa, na qual havia lhe tirado com seu prazer liberto, sombras que lhe perseguiam.

Então vi quando o céu se abriu envolvendo-a com um manto de luz e sepultando suas dores. No clarão ofuscante, transfigurou-se ela, com sua alma límpida, em um anjo incorpóreo, imaculado.

Não mais pertencia ao deserto a que veio. Nem aos mares e quimeras de além. Eteriamente, agora sem as trevas que lhe foram tiradas, foi arrebatada de minha presença animalesca.

Sozinho, angústias antropofágicas haviam se multiplicado em mim, e o deserto que me habitava em essências falsas me era ainda mais sombrio.
Num esforço indigente, contemplei os horizontes vazios, em busca de gotas de sua luz residual, que pudessem acalentar minhas dores e acariciar minha palidez anêmica. ao céu vi grafado em letras douradas: “Violaste a última fronteira com teus sacrilégios ensandecidos”.