domingo, 25 de junho de 2017

AINDA QUE OS ANJOS E OS DEMÔNIOS NÃO FALEM, EU TE SEI



Eu te sei, e te reconheço,
ainda que te escondas às sombras
dos mitos e dos ídolos
que fabricares:

salivas firmes gloríolas
sobre ti mesma e dizes amar a luz,
enquanto, às sombras,
deitas-te entre ratos, porcos
e cães.

Se duvidas – e não devias –
procura-te em teus segredos incestuosos,
em tuas profecias espúrias
ou nas epilepcias de tuas regozijadas
virtudes;

que eu te sei, e te reconheço
– adúltera e dissimuladamente purpúrea –,
fabricada às mais abissais
obscuridades:

uma demônia perdida
tentando travestir-se de sublime anjo,
para conspurcar paraísos
e sagrados templos,

que um dia ousou querer de mim
algo que, por falta de coragem e por imperiosa
força de teu ego, não nunca te
fora pertencido:

o desconhecimento do bem, do mal
e das demais coisas,
a fria visão do apagamento
e a inexorável, inalienável e abnormal

condição do ser.