Chego em
casa às 3 da madrugada, meu amigo não aguentou o
trampo esta noite, naquele boteco emporcalhado em que costumamos
a varar as noites na bebedeira e na filosofia dos mitos; ou
não gostou de meu ataque a seus ídolos sempre defendidos nos
debates.
Na verdade, eu nunca liguei para mitos, ou ídolos, ou filosóficos que ele imantava com tanta pompa; já havia detonado de Jean Paul a Shopenhauer, e enfiado Zaratustra no cu de Nietzsche várias vezes.
Eu gostava de falar era de calcinhas e de bocetas; e ele, catedrático e com aquele terno engomado, ficava injuriado e, às vezes, chegava a perder as estribeiras quando eu falava das donas que moravam no bairro.
Na sala vazia de minha casa, abro solitariamente a segunda garrafa daquele vinho tinto barato imaginando algum verso ébrio para salvar a noite; ligo a rádio que toca uma música desconhecida, dessas das garotadas cheias de vida que correm como aves por aí.
Mas, para um velho como eu, a música fazia mais barulhoque os bueiros das bocas abertas de durante o dia.
Desligo a porra da berraria e coloco um cd player com whiter shade of pale, que me lembra dos longes idos, de quando andava com putas pelas zonas da cidade a sonhar amores.
Costuro, mais uma vez, a intenção de escrever a enferma condição do ser, lembro de meu amigo, que a essa hora deve estar roncando, ou imaginando o que mais pode me dizer em defesa dos nobres imperativistas na próxima noite.
Se não sabeis, o mundo sempre pode ser conquistado na próxima noite.
Pego da caneta,do papel, dou umas golaças no vinho e começo a escrever meus reflexos; utopias naufragadas nos rasos precipícios das águas; rosas surradas com palavras, perfumes e sexo, e a dona de meu amor jogada na mesma lama da existência vil.
E noite vai se apagando em minhas sombras bêbadas;e novamente me lembro de meu amigo, com aquele ébrio olhar de sinceridade: "Acho que você está morrendo!"
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