segunda-feira, 2 de outubro de 2017

DORME



... dorme, amada minha,
que tua vida for a nada como
eu te falava,

que minha vida
não é o que penso ser ou sentir
e que também se virará
ao nada,

que a vida
de todos que, como tu, dormem,
foram nada,

que a vida
de todos que, como eu, ainda
deliram que estão sencientemente
acordados irão ao nada;

sim, dorme amada minha,
agora com o teu outro mestre, Fernando
Pessoa, nesta outra ajá
morta linha,

que é como ele
disse e eu sempre confirmei a ti:

“Dorme, que tudo é vão!
o caos nunca deixou
de haver e nunca deixará,
se alguém achou a Estrada,
achou-a em confusão
com a alma enganada.”;

sim, dorme,
anjo meu, porque não há possibilidade
de haver outro eterno reino que
não o do apagamento,

aquele
em que o ser não possa mais
intervir com suas retinas, quando,
no máximo, a luz de nosso sol
se extinguir,

e  com ela
todos nós e nossas visões
adulteradoras, reveladas pela reflexão
irregular de sua natural
luz;

no mais,
o caos há entremeio, como sempre houve
e haverá, só não mais podendo
 ser sentido pela laiva
morbidez da mente

sapiens.

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