quinta-feira, 5 de julho de 2018

PALAVRAS VOLÁTEIS


Não creias
as palavras voláteis
e os versos mal traçados
do poeta niilista,

nem trilhes
pelos caminhos que o cão traça
por entre os palcos
da vida;

porque dizem por aí
– e constato –
que eles são cheios de sonhos,
pedras e precipícios.

ILUSÕES TRANSITIVAS


Por que te preocupas
em entender-me, flor de inverno,
se de onde te encontras
não te és possível,

ou por outra,
por que não congelas
meus versos, para os leres
quanto também não mais te houver
mais ilusões transitivas,

para quando também
não te repousares o dissimulado olhar
em outra direção, que não seja
a de teus próprios passos
perdidos?

FLAMEJANTE EGO


Vejo que
és perspicaz ao analisares
minhas poesias,

e concordo
plenamente com isso,
e concordo mesmo que elas
sejam piores que comer
jiló aos domingos;

mas podes
te surpreender quanto
ao que mais demonstraste gostar
com teu flamejante
ego:

minha mente
é tão insana que pode fazer
balançar tuas maiores
loucuras.

SILENTE MADRUGADA


Próximo aos 45,
como já não fazia há muito tempo,
levantei-me de minha insônia
e me fui a caminhar pela silente madrugada,
à avenida sombriamente deserta,

tal como quando era uma criança
que, entretida em caçar passarinhos com seu bodoque,
perdeu-se na mata escura,
com a impressão de que havia um monstro
ou um demônio a lhe perseguir,

tal como naquela ocasião
pelejei contra a maldita visagem
em angustiosa correria que não parecia
ter mais fim;

temi, apavorei-me e quis
correr, fugir, ter um par de braços a me abrigar,
ou uma mão que seja para tocar
e me resgatarem o mais breve
possível

– mas não olhos, olhos não,
nem semblantes, semblantes não,
que todos os olhares e todos os rostos
seriam demoníacos naquele,

mas, depois de um tempo,
extremamente cansado, esquálido e ébrio de sentidos,
olhei para todos os lados
por entres as casas, as esquinas e os vultos
fabricados pelas luzes
de neon,

e percebi novamente
que eram tão somente meus terríveis fantasmas
que sempre me acompanharam
deste quando me habitava
em puro templo.

terça-feira, 3 de julho de 2018

ALÉM DA MARGEM!

Abandonado
em um oceano seco,

entre à morte
ainda com aquele sinistro
sofrimento por amor,

jogado nas escuridões
nas mais frias noites:

quando tentei
me desviar da Flor de inverno,

caí nas agudas
garras da branca nuvem,

já estava
todo quebrado perante
o ultimo e solitário
horizonte!

INSUFICIENTES IMANÊNCIAS!

Escrever poesia
é como amar e meter,
não é nada inocente:

no entre imagens
dos sonhos, dos amores
e dos prazeres,

as verdadeiras
nuvens e as verdadeiras sombras
não mudam de forma
ou de cor:

nós é que
as margeamos na existencial
ponte!

ETERNIDADE!

Ando com tanta
vontade e tao desejoso
de me plantar, de alguma forma,
no infinito

que nem as dores,
nem as angústias e os sofrimentos,
nem os tempestuosos mares,

nem os constantes
e seguidos tropeços e sofrimentos
pelos quais tenho passado
nesta vida,

nem a iminente hora
da morte conseguem evitar
meus delírios dementes!

ABISMO

Somos bipolares,
sempre divididos em duas partes,

uma que sonha, outra que sofre,
uma que se dá ao mundo,
outra que quer devorá-lo,

uma esperança eterna
à beira de um definitivo naufrágio,

uma graça,
um pecado, um amor
incontido rancor, o alívio,
a dor:

sim, em tudo somos ambíguos
e bipolares esceto quando caímos no abismo
de nós mesmos, porque deste
não se sai vivo!

INESQUECÍVEL DEVANEIO!

Já nem me lembro
do que seja um fluxo de sublime
amor à nuvem:

exatamente,
é preciso reconhecer,
agora que estamos realmente
a caminho do fim,

que tentamos cultivar asas,
sem jamais conseguirmos deixar
de sobrevoar abismos
e precipícios,

e que, realmente,
não creio que nossas ausências
nos sejam mais dolorosas
que nossas ácidas
chuvas;

mesmo assim,
amo-te de um estranho e louco amor,
sem que, incautamente,
jamais te tenhas percebido
do essencial:

era-nos necessário não só o amor,
mas também o respeito, a dignidade
e uma duradoura paz
ao onírico leito

para nos anestesiarmos,
de mãos dadas,
das angústias e das dores
do mundo.

NUM LONGÍNQUO CREPÚSCULO!

Num longínquo crepúsculo,
ele se sentou nunca cadeira de mogno
e começou a enrolar, lentamente,
seu cigarro de palha:

as mãos calejadas
pareciam ter se transformado
em rijos e estranhos cascos,
com seus tentáculos cansados;

à pele envelhecida,
corriam tantas falésias
que lhe encobriam estórias
e nativas sardas.

Ele gostava ver o pôr-do-sol
dando baforadas
como que a assistir às últimas
luzes do espetáculo,

como que a me ensinar
como são frágeis
as cortinas de fumaça.

EU SEMPRE TE REPARAVA

Ainda me lembro
de quando estavas ali,
despercebida

– entre flores e cravos –;

ao longe,
teus lábios faziam
graciosas curvas sem que dissesses
uma palavra,

tuas pétalas
bailavam ao vento,
fazendo-me sonhar a nuvem
protegida.

Estranhamente
já se me tornavas vital,
mesmo antes que te percorresse
as sensuais margens,

e me naufragasse na puerícia
de tua alma.

ETERNAS AUSÊNCIAS!

E agora,
com ambos ausentes,
tu e eu:

que horizontes
merecerão teu olhar
angelical;

e que falésias
abrigarão, do cão,
as sombras
e o pau?

CONTRASTE!

É visível
que não gostam
– esses mascarados puristas
de plantão –

de quando
me aproximo demasiadamente
de suas apresentações
maestrinas:

tremeluzem,
alguns menestréis franzem
as sobrancelhas
em ira;

algumas mariposas
jogam os cabelos para trás,
fingindo desdém.

Às vezes, curvam-se
o raso chão,
atirando-me pedras verbalizadas
contra as sombras

– em vão –,

e revelando que,
por detrás dos disfarces,
há exatamente que estou ali
para evidenciar:

a verdadeira
– ou dela a falta –
face.

NOITE INESQUECÍVEL

Chegara de madrugada
em casa,

perfumado com o cheiro
e arranhado com os espinhos
de uma fulga flor
de inverno

– ela entendia mesmo
sobre chãos
e era uma fulgurosa puta
na cama –;

ao portão,
esperava-me um corpo cansado,
olhos lacrimejantes
e suaves mãos,

para curar-me as feridas
e ensinar-me,
dolorosa e silentemente,
sobre o amor e as sublimidades
do coração.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

REPÚDIO


Não sou poeta
para me compararem
com os tais,

os açulados
bam-bam-bans da vida
ou da morte,

do amor
ou do dissabor, do lampejo
ou do desejo;

sim, não sou
como os poetas com suas tantas
máscaras mágicas,

que sabem tudo
sobre ipês, jacarandás e glicínias, que conhecem
tudo sobre sonhos, fantasias
e insânias incontidas,

e que grafam
(sobretudo em túmidos versos) seus egos
às tênues e exíguas luzes
das lamparinas.

PENAS DO MUNDO


Eu queria
saber escrever sobre
coisas boas,

dessas doces,
dulcíssimas que falam d’sonhos,
d’amores e d’esperanças;

dessas sem bocetas
encharcadas e sem paus hasteados
nos varais,

dessas sem pregos
afiados e sem grandes merdas derramadas
pelas estradas;

dessas que todos
gostam de ler e elogiam, por não conterem
dores nem bolores;

dessas, enfim,
que todos deixassem de dizer
que perdi a razão;

apenas por
se verem no contraverso
de seus reflexos.

PEDRAS E PERDAS


A nós dois,
que nos sobrevivemos
por tanto tempo

em cruciantes dores
e angústias, nesse estranho amor
de lâminas

– carregado de ominosas
imagens, de lancinantes chuvas
de fogo,

de severas condenações
com o verbo e de enraizados rancores
na alma –,

que nos apetece ainda
cultivar sombras sobre as superfícies
desalinhadas e pontiagudas
do mundo,

a não ser
para sedimentar a iminente morte
de nossas asas?

NÃO HÁ AMOR SEM CAOS

Sem a menor dúvida,
o maior problema que enfrentamos
durante todo o tempo em que
nos amamos,

foi termos excogitado demais
sobre nós mesmos,
e sobre o que éramos ou fazíamos
ao meio de outros passarinhos e mariposas
com seus cantos soberbos
e seus faróis acesos,

porque o amor não admite elucubrações
nem suas palavras-instrumento,
que acabam se transformando em afiadas
navalhas a tocarem a alma
e a ameaçarem a paz.

Não, não fale deles
– essa bicharada que, como nós,
regozijam luzes defecando
sombras escondidos –;

os maiores culpados
de nossa morte fomos nós mesmos,
que não soubemos nos amar
em meio a este inevitável
caos.

A SENSIÊNCIA HUMANA!

Que seria a maior virtude
– ou riqueza –
há no ser humano,
senão a razão, que o difere
das demais coisas
e animais,

que lhe permite,
entre tudo que imagina, sente ou vê,
fazer escolhas que melhor
lhe aprazem?

Não obstante,
que também maior chaga
há no universo
que a aquisição acidental
dessa racional
senciência,

que lhe permite
colocar-se ao centro de tudo,
rasgando possibilidades,
inaugurando novas casualidades
e provocando extermínios
plurais?

VIVER É NÃO PENSAR

Se as coisas não nos são
de outro modo, senão o com que as vemos
com nossas sencientes e cegas
retinas;

por que eu deveria
dar algum crédito ao que regozijam
os filósofos, os religiosos
e os demais menestréis
de plantão,

ou por que deveria
pagar algum tostão que seja,
pelo conjunto a quem chamam
de sabedoria humana?

ESTRANHA ANARQUIA!

Em que estranha anarquia
e em que abstratíssima sensação
me acordei nesta opiácea
e inusitada manhã:

sob o desdenhar das nuvens,
fora como se as coisas
estivessem se apagando
em branco,

sem que eu pudesse
compreender se eram reflexos avessos
de meu espúrio eu psíquico,
ou de minha alma
vazia.

DESEJOS

Beijos ardentes,
mãos ávidas a percorrerem o corpo,
bocas a suspirarem desejos,
pernas delineadamente sensuais
a me prenderem à vulva
a rígida haste

– as entregas, os malabarismos,
os suores, os afagos, os orgasmos:
sem nenhuma contenção,
sem nenhuma tentativa
de compreensão –;

mas há uma condição
que preciso impor tão somente
para nossa sobrevivência
de asas:

em meio a essa imperiosa
tempestade de libidinosos sentidos,
deixa o verbo amar
no intransitivo.

PERDI A COR DA NUVEM!

Perdi a cor da nuvem
em que nos abarcamos outrora,
agora sei apenas que há um corpo
sensual e faminto a andar
por aí

– entre mares sedutores,
céus promissores e pedras-de-tropeço
de todas as cores –

a se inebriar a goles
de sonhos, amores e encantos
e outros pássaros
sapiens,

com suas vesanias às mentes,
seus regozijos às bocas
e suas extasiantes espumas
às genitálias.

Sim, perdi a cor da nuvem
em ângulos e caminhos contrários,
sem nunca termos conseguido elucidar
os mistérios de nossos ventos,
chuvas e tempestades.
 

O QUE FAREI AGORA?

Não compreendo
isso que me sobrou agora,

é como se o sol
tivesse se posto para sempre

e aquele inverno
em que nos amamos
tivesse me envolvido e tomado conta
de todo meu corpo e minha alma;

e o pior de tudo
é que eu não sei o que fazer
e onde ir agora que tu já não estás
em lugar algum à minha
espera!

BECOS SECRETOS

Por trás
daquele olhar negro,

por trás daquele pálido
olhar de anjo,

por trás
daquele limpíssimo e sensual
vestido branco,

por detrás
daquelas asas de voos
sublimes e longos:

eu vi,
e eu senti um desejo tão
indevassável,

que sustentaria
toda uma legião de demônios!

TENS IDEIA DE COMO JÁ TE AMEI?

É magnífica a visão:
“tu tomando banho de piscine de top less
e com a pequena calcinha
enfiada atrrás;

de resto,
totalmente nua!

E eu fico dissimuladamente
te olhando e pensando no que te dizer
ou no que fazer contigo,

vendo a pequena peça
te comendo e o sol te lambendo
o corpo inteiro:

oferecer-te uma linda canção,
um poema dos melhores que já escrevi,
um jantas com uma vela em luz

out e amar urgentemente,
enquando não chegam os astutos anjos
e os famintos lobos!

CONSTATAÇÃO!

Tudo sobre ti
foi meio fantasia, meio idealismo,
meia realidade,

meia verdade,
meia mentira, meio conto
de fadas,

meio mar,
meu céu, meia floresta
meio deserto amargo;

sim, tudo sobre ti
foi meio dia, meia noite,
meia presença, meia ausência,
meio júbilo, meio silêncio.

“Vai com cuidado, Thor!”,
eu me dizia silentemente a mim mesmo:
“Tudo nela é meio luz, meio sombra
como se ela fosse uma fábrica
de sonhos e de bombas!”

A VISÃO PARA FORA DA CAVERNA É ABNÔMALA!

Voltar para a caverna,
este é meu inexorável caminho,

que outros façam
da poesia caminhos e destinos
de ilusões e de sonhos,

que outros a façam
de repercussões de imjpulsos
e de desejos ardentes
e excitantes,

que outros a façam
com palavras de amor de suas noites
de glória e insones;

eu, para escrever,
uso a pedra,

a pedra
que constitui o que nunca fui,
ou deixei de ser:
a caverna!

ESCONDIDOS ESPELHOS!

… à noite
ficam acordados os cães,

e os anjos sabem
disso de seus exilados
paraísos:

dizem que,
quando Deus adormecem,
descem escondidamente
às sombras,

onde sonham,
amam e fodem com seus espelhos
em libidinosíssimas

miragens!

sábado, 19 de maio de 2018

YOU NEVER LOVED ME!

Não, nunca me amaste
porque sempre gostaste dos bailes
dos tentilhões azuis,

dos cafés-concerto
dos menestréis vaidosos como tu
e dos contos de fada onde
tudo se desenvolve
e se finda bem.

Não, definitivamente
tu nunca me amante, não tenho dúvidas:
se me amasses, terias bebido comigo
e sentido o gosto da noite,
das chuvas de fogo
e das cinzas!