“Além da luz,
o homem nada vê na imprevisibilidade natural das coisas. Assim é que toda
emanação clarificada pela razão humana cobre as sombras, roubando-lhes o
direito a suas essências puras.”
Choveu o céu cristais de gelo nunca antes vistos quando a
grande angústia alcançou nuvens horizontais que pairavam escondendo, em sua
moldura azul, todo o infinito condenado em suas estranhas frialdades.
Desnudou-se-me a imensidade em vultos frios e mortais. E da
terra umedecida pela chuva abismal percebi que minhas frágeis asas, oníricas e
desvairadas, convergiam-se em um manto estranho e mortal para, depois,
desaparecerem-se com a minha nudez tantas vezes escondida.
Vi-me então como jamais antes me fora visto de meus
esconderijos. E grande temor se me apossou com as muralhas destruídas que
tantas vezes abrigaram mundos em atuações incompreendidas.
Foi então que percebi que o céu, e o além- dele, e o tudo que
há nada mais fora ou venha a ser que o nada que me habita em imagens falsificadas.
Desnudei-me enfim e, no cansaço e dor extrema da queda
fatídica, vieram beber de minhas entranhas expostas todos os anjos mascarados
de alvo branco, e todos os demônios assumidos em seus delírios, e todos os
demais seres bizarros na multidão ainda de mim desconhecida, deixando-me
espalhado macabramente, sem essência alguma, numa fina névoa de poeira,
sombriamente oculta em teus semblantes.

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