segunda-feira, 3 de abril de 2017

MEIA-NOITE XXIV



De manhã, tive de lidar com canarinhos e bem-te-vis que cantavam com extrema soberbia à minha janela.

À tarde, as coisas pioraram um pouco: marimbondos, urubus e insetosinvadiram o jardim das primícias, onde eu tentava plantar, junto às flores do outono, meus tentilhões eriçados.


À noite – houvesse, talvez eu ganhasse algum prêmio entre os mais solitários e angustiosos sapiens –, num banho morno, deixo escorrer-me o barro e, ainda semimolhado, deito-me prostrado à cama, ajeito o travesseiro, aliso os lençóis, e ela, que me conhece as curvas mais delicadas. os pensamentos mais degredados e os sonhos mais extáticos, e ela, que, dentre todos, é a única que sabe que eu lhe retorno todas as noites, suspira ao zelar-me o sono da madrugada e ao amar-me, silente e sem segredos, o corpo nu e a alma machucada.

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