Acordo imaginando como me passar por mais
um dia de algum modo menos insuportável; depois de caminhar até
a cozinha pelo chão sujo de cinzas de cigarro e de restos dos
fantasmas da madrugada passada, fugindo do frio que tenta, já
logo cedo, retalhar-me a pele em dor.
Sirvo-me à mesa uma xícara de café, acendo meu primeiro cigarro e abro o jornal que não parece conter nada de novo a não ser a manchete sobre um assassinato ocorrido em meu bairro.
Retorno ao quarto e arrumo-me para a rotina, começando por trocar a água e a comida do canário que trago trancafiado numa gaiola, e somente à saída para ir ao trabalho é que reparo que o céu se curva turvo e que as nuvens choram de manso, prenunciando enterros de luzes durante a passagem; a alguns metros, vejo um filhote de pardal morto numa poça de água e lama, cumpro meu papel de cidadão,
ainda a tentar tornar o dia mais suportável, embrulhando-o num pedaço de jornal que ainda carregava às mãos e jogo a um saco de lixo encostado na calçada.
Sigo rezando a cartilha dos homens nesse dia, mesmo com o chefe a me encher o raio do saco e com a gostosa da secretária a me olhar com um estranho desdenho nos lábios, como que soubesse de algo que ainda não me tivera sido revelado: escrevo, telefono, martelo vendas ludibriando os ingênuos compradores com a lábia que aprendi com os cães, tudo a bom grado do patrão que, ao fim do dia, me planta o pé no rabo anunciando redução de despesas de sua puta empresa.
Caminho para casa ainda sob a fria e
constante chuva, mas já não me desvio das poças dágua; e,
não sei por quê, lembro-me de alguém foi morto na madrugada ali
perto, no mesmo bairro, e de que um filhote de pardal também
morto foi jogado no lixo por um covarde neandertal.
Chego em casa, abro uma cerveja gelada, preparo um maço inteiro de cigarros, coloco Tchaikovisk a tocar e me sento à cadeira de vimo diante da mesa vazia; ainda tenho que passar pela noite com meus fantasmas,
pronto para assassinar também, com a esferográfia, meus nobres irmãos sapiens!
Chego em casa, abro uma cerveja gelada, preparo um maço inteiro de cigarros, coloco Tchaikovisk a tocar e me sento à cadeira de vimo diante da mesa vazia; ainda tenho que passar pela noite com meus fantasmas,
pronto para assassinar também, com a esferográfia, meus nobres irmãos sapiens!

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