Que grande angústia me habita e que estranha ilucidez se me apodera em minha insalubridade sobejada.
Pensei que as melodias ressoantes de
palavras lançadas aos ares enfeitados; que os sentimentos espraiados em juras
ou perjuras por toda a seara por onde andamos a semeá-los; e que toda a
confraternização sob todo o espectro fossem genuínas. Mas ao que me rumino
devaneadamente, diante de nossos túmulos pintados a falso ouro, não passam de
espasmos incautos a contaminar a verdadeira realidade de onde há ausência de
nossa visão entorpecida em nossos próprios vinhos insulsos.
Toda vez que inauguramos algo em nossos
pensares ou em nossos dizeres, imediatamente também criamos reflexos deturpados
que nos revelam. Onde nos projetamos castos ou implantamos um bem em qualquer
parte, comprovamos a criação também de um mal contrário em algum ponto da orbe.
Onde semeamos amores, crenças ou esperanças
quaisquer, haverá de ter também o escarro viu, o apelo recusado, e os
cacos de sonhos quebrados. Onde criamos deuses para nossas adorações e alívios,
haverá de ter também demônios para despejos de nossas próprias chagas. Onde nos
postamos como heróis ou como sublimes seres, haverá de ter proliferação de
cobardias ou de escarros lodosos por detrás de nossas máscaras insalubres.
Como entender, então, de nossos paradoxais
centros genéricos, que nossos pisares presentes ou nossos anseios em porvires
irrealizados; que nossos sentimentos sempiternizados em soçobros manifestados;
que nossas explicações de tudo a nos aprazer; e que todas as demais
configurações da máquina estão condenadas em suas próprias engrenagens, se
despercebidos somos de nossas deformidades?
Ao andarmos pelo tempo aprisionado em
nossas embalagens e pelos espaços adulterados por nossas ebriedades, não nos
sentimos anomalias, pois nossa vociferada e tênue sobriedade advém exatamente
da incapacidade de contemplarmos um algo existencial que possa haver sem nossas
concepções ursas. E do ponto em que nos colocamos como fulcros com nossas
egocentralidades é que emergem interpretações de todas as coisas, e para onde
se convergem todas as pseudossubsistências, condenadas, por isso, a serem
ilegítimas ou degeneradas.
Ainda com um pouco de receio de condenar
nossas existências antes do tempo próprio do apagamento fatídico, reluto diante
da noção ilúcida de que cordões umbilicais fragilizados nos ligam a nossos
princípios contrafeitos e a nossas condições humanas apócrifas. Vencido em mim
mesmo, entretanto, entre névoas espessas através das quais não vejo bem,
percebo-nos em composições paradoxais, de onde regurgitamos nossas essências
perfídicas e indeléveis.
O que me
moveu para baixo no crepúsculo meu? Perambulo sem rumo com uma dor que me segue
em minha própria sombra e começo a ter uma certeza não bem delineada: Somos um
algo qualquer, inexplicáveis deturpações digerindo prognoses de toda ordem.
Sim, a partir de nossos "eus" apócrifos é que realmente somos
construtores de tudo que nos apeteça ou nos quede.
E declamo assim, às
vaias recebidas, que todo olhar lançado a qualquer ponto da pradaria ou do
deserto, eivado que é por deformidade do lançador, carrega em si abundâncias de
desejos e de exigências que nos levam a quedas em nossas próprias
transparências cegas.
... o ser é,
sim, livre,
para fazer
suas
escolhas por
si mesmo;
mas como
vivemos em uma
sociedade
onde há muitos
centros
de escolha,
não é livre
para deixar de
pagar
pelos erros,
margeamentos
e julgamentos
que lhe
forem impostos!

Nenhum comentário:
Postar um comentário