terça-feira, 28 de novembro de 2017

ÀS VEZES



Olhamos para o céu sem luar, numa noite escura de todos os dias, e na sombrosidade nos alertamos às beladonas dos jardins proibidos, onde há entregas com palavras e sorrisos falseados em imagens esplêndidas e em desejos obscuros e insolentes à vaga chama da alma covarde, já Combalida e amargurada na morna brisa aparente que fulgura invisível.

Às vezes é preciso chorar a esperança de viver algum sentido qualquer, que se eterniza nos confortos oníricos e perfídicos a que nos permitimos, e ser avassaladoramente cão na peleja dos olhares que nos comem, e nos bebem maliciosamente, ofertando pseudogotas de consolo ao flagelo.

Às vezes é preciso ignorar o negro céu sem expressar o que corrói os corações, e permitir que se vejam tão somente um relvado berço das noites de solidão escondidas entre os abraços, e as juras, e as promessas trocadas insanamente pelos atores todos que vão se apagando abaixo do mesmo forro negro da fria noite.

Às vezes é preciso compor entre cheiros, cores e sons estranhos e desconhecidos, andar suavemente por pedregosos caminhos que há entre jardins de sóis, extasiando-se nas maiores chagas – perfumadas rosas com seus espinhos venenosos e com suas futilidades às avessas a nos invadir as entranhas inflamadas e apodrecidas.

Às vezes é preciso apenas nos deixar doer, incrédulos, esgotadamente cansados e sofridos, e, na mesma noite fria de todos os dias, em fúnebre silêncio, sem mais palavras ou sorrisos, atravessar praias desertas, com nossos obscenos vermes internos e com nossos corações vazios.

Às vezes, como as mariposas cegas que buscam desesperadamente a luz, numa entrega onde se esvaem suas vidas ansiadas em mortes incandescentes, é preciso que se permita ficar nu nas cenas vazias, onde festejam despojos forjados, com seus suspiros desconexos nos espaços ainda livres onde se assentam ilusões condenadas, deixando de si nada além de um quase invisível rastro de morte lenta e incompreendida.

E, então, omente esperar pelos demais carrascos bem travestidos em máscaras nobres,Que nos trazem à cena sonhos mortificados dos quais somos incapazes de fugir.