terça-feira, 4 de julho de 2017

FLOWER



Nasceu,
ao acaso, uma fulga flor
em minha ebriedade onírica,
que foi crescendo
magnífica.

Quando percebi,
estava a amá-la regando com chuvas
de fogos e de lágrimas,

com enlaces de fulgores
e de desejos, e com um inexequível amor
dádivo.

Mas, quando saía a caminhar,
alheio, entre ásperas pedras de tropeço,
também estavam a regá-la outros
mais sublimes,

mortificando
em meu jardim as melodias dos canários poéticos,
as singelezas das borboletas flutuantes
e as utopias das quimeras
cristalizadas.

Devia ter ficado
atento à flor de inverno
que se me declarou em ritos querençosos,
porque só descobri, ao crepúsculo
exangue,

que,
quando se perde a si mesmo
em promissoras auroras estéreis,
deixando de cuidar da própria
seara,

também
se perdem os alvos sonhos
com a amada, que sai a voar
pelos encantos de outros
jardins.

Hoje,
eu, que também já voei entre nuvens,
ando pelo deserto com as asas
quebradas

e não mais
me consigo nascer girassol
em nenhuma terra
ávida.

Porque,
na estranha vaga,
minhas crenças estão acorrentadas,
minhas verdades estão comprometidas
e minhas esperanças estão
alagadas.