Há pesos demasiados excessivos ao ser humano. Há ocasiões em que se
dobram até os mais fortes joelhos. E, essas horas, invocados são todos os
deuses para o utópico sonho de um amanhã mais ameno. Sim, sempre o dia
seguinte. Só ele ontem tanto o contraveneno ao presente, como o alívio do
apagamento final.”
Antes do
eclipse, na omissão de minha verdadeira face sob belas máscaras dissimuladas,
deixei todas as minhas fragrâncias espúrias perdidas pelas efemeridades de
minhas atuações pelos ventos de todas as épocas; pelos mares, cujas ondas
ritmavam danças sensuais; pelos prados onde se versejavam cantos e encantos a
romperem a brisa cipreste; pelos belos jardins floridos, onde desfilavam as
senhoras com suas peles claras e acetinadas, a se me oferecerem em volúpias de
enlaces em santuários de amor.
Não sei por
quanto tempo andei perdido entre minhas próprias e frágeis luzes. Mas lembro-me
de todos os náufragos – com seus amores, com suas dores, com seus sonhos e com suas
esperanças – que acoitei com promessas puras e com elocuções divinas,
salpicadas a ouro falso, que agora ressoam silenciosamente em meu âmago, em dor
que não suspeitava existir.
A estátua posta sobre a relva ostenta-se sob o
brilho dos dias, mas por dentro há convulsões insanáveis e gritos mudos de
angústias que, alheios ao belo arlequim, nunca ouviram. Sou algo qualquer entre
meus próprios céus e infernos, a andar sob sóis e chuvas constantes, enquanto
tudo a meu redor se consome em vastidões empalidecidas sobre a terra devastada,
na qual não passo de um murmúrio presente, sem aprimoramento de uma vontade
qualquer.
Agora, o dia se precipita ao fim da tarde e as
dobras da jornada se acentuam, efêmeras, com seus ares carregados de essências
incapazes de ressoar uma melodia qualquer, como alívio à cólica derradeira que
precede o declínio meu. No sangue esvaído do crepúsculo, sacudo-me em crises de
angústias e delírios tranaslucinados. De que adianta tamanha encenação humana de
todos, e também de mim, a esconder o quanto impiedosos somos em nossas
alegorias pálidas?
Com o olhar perdido, contemplo meu retrato
encharcado de atraentes cores irreais, e caio no mesmo poço de criadouros
absurdos, com a exaustiva tarefa de viver sempre a esconder o que me tornei a
outros compositores, com suas próprias urdiduras secas, e com seus próprios
sonhos incautos.
Em pouco, a
noite se abrirá gélida e negra, acolhendo minha mortalha. E minhas próprias
sinfonias compostas em minha mente tresloucada; meus passeios e meus voos
invisíveis por paragens que jamais se possam sonhar além das palavras-pincéis
que meus lábios pronunciaram; minha descrença no porvir de um resgate da
simplicidade e da pureza que nunca senti em plenitude em nenhum emanador de
sombras ou de luzes; meus âmagos dissecados em incompreensões assassinas e
minhas entranhas apodrecidas na lama negra que me corrói adentro, resguardados
em minha bela crosta externa; meus pesadelos entorpecedores de todos os meus
sentidos adulterados; minhas promiscuidades disfarçadas em poses magníficas, de
contornos expressivamente claros demais para que se possam notar além a
superfície minha; e minha alma combalida pela tresloucura que se assenta
mendigando gotas de consolo a uma realidade inexistente.
Tudo me leva a
um caminho único rumo à decrepitude fatal; onde árvores e flores se murcham
perante minha simples presença; onde amores e venturas condenados pela simples
versificação me são uma praga atirada à beira do abismo; e onde todas as demais
coisas confundem minha visão falha. Já não sou mais sequer senhor dos segundos
de meus próprios tempos, e nem de meus próprios templos, e nada mais se pode
decifrar por si só, senão por minha loucura posta.
S

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