Era
uma vez uma garça cristalizada que vivia com seus abismos escondidamente
virados para baixo. Subia nos penhascos, navegava os mares e desbravava os céus
estrelados. Mas quando fazia inverno, pisava os cravos e as baratas, para andar
até a próxima tela a ser pintada.
Não
jantava, banqueteava e transava com os anjos e com os pássaros. Depois de
algumas asas quebradas, refugiava com o cão nas madrugadas.
Um dia
chegou contando de uma seita maçônica e de um ser negro que dela fazia parte,
desprevenida de que eu já havia me dado com algo muito pior: o diabo. Outra vez
trouxe a história de um tio finado, com quem transava e, mesmo depois de morto,
continuava a transar como se seus dedos fosse dele o pau eriçado, sem perceber
que nada me assustava.
Quando
falava do padre, seus abismos negros eu mostrava e lhe tirava as máscaras. Fui
chamado de mensageiro por ter tido a coragem e a audácia de enfrentar uma
demônia como nunca havia feito um anjo alado.
Brigou,
choveu, chorou, amaldiçoou, invocou demônios e títulos sombrios para o cão que
sempre lhe rosnava. Mas dele não conseguiu tirar nem um pelo do saco.
Endoidou.
Saiu dando para qualquer poeta que aceitasse a condição de escravo, sem
perceber que jamais ficaria livre de seu maior mestre e carrasco.
Desgraça
para uma lilith figurada é nada perante a verdadeira Lilith do pedaço. “Cuidado
com as pedras, amor, elas matam”, falou-me dizendo me amar pela
eternidade, sem perceber que eu era o próprio penhasco.
Alisou
meninos e amou velhos. Masturbou-se com poeteiros em pelancas dos cantos e dos
recantos Traiu o padre e tentou, vanamente, enganar o cão danado.
Tudo vão,
pois avisei que a vi na laje e que vi sua queda de lá para fora do prédio em
cinzas e sombras molhadas.
Onde
ela está agora?
Temendo
pela morte abrenunciada. Lamentando pela dor de que eu falava. Mendigando por
mais um dia de vida “sem imagens”, do qual eu lhe dizia, por condição humana,
estar inapta.
Enquanto
isso, o tempo voava e com ela os anjos gosavam, o tio morto gosava, o menino
gosava, o marido das outras gosava, todos como bons intitulados.
PARALLAX
II
Um dia ousou tirar a blusa e mostrar a lingeri e os peitões, e à calcinha se alisava para ver se ao cão também dominava: foi acorrentada e podada de forma que imediatamente perdeu a graça, mas não a mania de se omportar enciumada.
Agora padece com os anjos correndo de costas e deve se lembrar do cão que lhe mostrou a real estrada e que lhe fez escrava da realidade, condenando-a e todas às suas aprocrifias ao futuro vazio e nada, ao qual agora ela está mergulhada!

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