domingo, 26 de março de 2017

DESERTO 47 – IV


Ás vezes, eu sentia,

- embora ela reafirmasse
todos os dias
que me amava –,

que aquele corpo
não era meu,

outro a possuía;

não que ela fosse canalha,
embora, em momentos ébrios,
eu dissesse que era,

ela até tinha ódio
e chovia em si mesma,
ao se lembrar dos fantasmas
passados a quem ofertara
sonhos e boceta;

mas a esse,
a esse ela amava
sublimemente;

e eu via a ampulheta
a escorrer
nosso tempo,

e eu via a noite
esvair-se lentamente,
rumo ao fatídico inverno;

de manhã, enfim,
consegui eu também
controlar meus medos
e meus abantesmas,

e, silentemente,
fomo-nos nós a seguirmos
por caminhos diferentes,
mas igualmente vazios;

e, desde então,
nunca mais a vi.



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