domingo, 26 de março de 2017

DESERTO 47 – III





Nesta noite,
tive um sonho
deserto,

desertíssimo
e escuro:

ela descia do céu

– toda angelical
em alvas
e asas –

com sua harpa
às mãos,

e de sua boca
escorria uma linda
canção;

ao se aproximar,
em suave voz

– quase em sussurro
a meus ouvidos
moucos –

indagou:

“você não volta
mais?”

E eu,
que sofro
de incontinência
pluvial,

e com um certo
receio

– vai que,
como dizia,
seja mesmo ela
uma anja de Deus? –,

segurando-me
em silêncio para não
lhe chover;

quando,
de repente,
ela pousa tão próxima
que sinto seu
estranho hálito:

“você é resistente,
é o mais forte
que já conheci;
e, um dia, você voltará
para mim.”

E, do silêncio
que até então me havia,
fizeram-se raios
e trovões,

e desaguou-se de mim
gostas de afiados
verbos:

“foste tu, demente
de falsa veste,
o segundo maior erro
de minha vida;
infelizmente,
ao primeiro não posso
consertar!”

E ela se foi em lágrimas,
subindo e sumindo,
talvez aos braços
de seu Pai,

talvez à tênebra
moradia do
demônio;

e eu fui-me encobrindo,
na angustiante
noite fria,

entre as areias
do deserto.

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