Nesta noite,
tive um sonho
deserto,
desertíssimo
e escuro:
ela descia do céu
– toda angelical
em alvas
e asas –
com sua harpa
às mãos,
e de sua boca
escorria uma linda
canção;
ao se aproximar,
em suave voz
– quase em sussurro
a meus ouvidos
moucos –
indagou:
“você não volta
mais?”
E eu,
que sofro
de incontinência
pluvial,
e com um certo
receio
– vai que,
como dizia,
seja mesmo ela
uma anja de Deus? –,
segurando-me
em silêncio para não
lhe chover;
quando,
de repente,
ela pousa tão próxima
que sinto seu
estranho hálito:
“você é resistente,
é o mais forte
que já conheci;
e, um dia, você voltará
para mim.”
E, do silêncio
que até então me havia,
fizeram-se raios
e trovões,
e desaguou-se de mim
gostas de afiados
verbos:
“foste tu, demente
de falsa veste,
o segundo maior erro
de minha vida;
infelizmente,
ao primeiro não posso
consertar!”
E ela se foi em lágrimas,
subindo e sumindo,
talvez aos braços
de seu Pai,
talvez à tênebra
moradia do
demônio;
e eu fui-me encobrindo,
na angustiante
noite fria,
entre as areias
do deserto.

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