domingo, 2 de julho de 2017

EU, NIHIL



Um dia aprendo
a não acreditar nos vivos
e a não lhes pedir sonhos pueris
nem flores gris;

um dia hei-de
visitar os mortos – no silêncio destes creio –,
pegar-lhe-ei flores dos ataúdes e, sob o mesmo luar
em que andaram outrora, escrever-lhes-ei
novas estórias;

depois,
quando não mais me houver
dias nem noites, nem mais amores, fulgores
ou dores, vou me deitar com eles
em descanso eterno,

e, quem sabe,
não me venham fazer companhia,
ao cadáver decomposto, alguma dama da noite
ou algum outro louco,

e me colham flores
que nunca dei, e me reinventem em estórias
que nunca protagonizei,

às folhas intactas
de novos livros e com reluzentes cores que,
em vida, nunca me fora
possível haver.