sábado, 25 de março de 2017

PESADELOS



Não sei exatamente
quando se me surgiu essa inexorável
mania de dissecar
o sapiens

– bem como as ominosas
consequências de seu espúrio
e senciente ego –,

mas lembro-me
de uma estranha cena
que me ocorreu quando ainda residia
no pueril templo:

ao jogar bola
na encascalhada rua defronte minha casa,
bati fortemente a cabeça em um poste
que lhe fora acimentado
à margem;

e todos me correram,
espantada e preocupadamente,
sobretudo os grandes neandertais,
a perguntarem se estava
tudo bem.

Da cabeça,
o sangue se me escorria
a inundar o rosto, os ombros
e o medo;

enquanto a luz neon
do poste tremeluzia combalida,
até que uma neblina de poeira
pairasse absoluta
às sombras:

“Sim, está tudo bem.”
.

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