sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

ONDE MAIS SINTO A DEUS

Se é verdade
que entre as luzes sapiens
vejo severas sombras,

é fato que
dentre as virgens escuridões
do Cosmo,

onde as retinas
e as senciências humanas
não alcançam,

sinto
a verdadeira divindade
de Deus!

EU, MEUS FANTASMAS E EU

Ouço fantasmagóricos
boatos de que a noite mais longa,
mais fria e mais calma
se aproxima,

ao vento
o cheiro da morte disfarçado
pelos perfumes das rosas
e das damas-da-noite;

uma andorinha
voa proximamente, um canário canta
proximamente, um ano ama e geme fodendo
proximamente,

alheios de que
o resplendor da lua não me brilhará
mais no dia seguinte!

PURITANISMO DISSIMULADO

Mulher,
de mil fases
e de mil e uma máscaras
teatradas,

de mil rosas
e de mil e um espinhos
afiados;

mulher,
que se veste de cheiros e cores
ao corpo sinuoso

e de claridades
néon às belas e ávidas cordas
vocálicas;

é sob as superficiais
dos caminhos e dos desalinhos que costumas
demonstrar suas maiores
desgraças.

ENTROPIA HUMANA

... rumo
ao fim de suas vidas,

entre a enfraquecida
(mas resistente) capacidade de criarem imensidões
e o iminente e inexorável retorno ao frio
caos do apagamento,

buscam ainda
(os sapiens) respirar um pouco de luz,
em meio às próprias e faustas
superfícies.

PORTAS FECHADAS

Em espanto e dor,
aquele sublime e eterno amor de outrora,
que tantas e tantas vezes
nos (per)juramos,

padeceu no último adeus,
juntamente com todas as quimeras que sonhamos
e com todas as esperanças
que engravidamos:

e até hoje,
quem se nos passa vê
[aos chãos do cais abandonado],
sem entenderem por quê,

os caóticos resíduos
des asas quebrados, des cinzas molhadas
e de destroços espalhados
por todo lado.

ENQUANTO NÃO CESSA O CANTO

... sim, aos amplos
adornos e às cruciantes dores desse estranho
e alucinado amor

– com seus desejos aflorados,
com suas esperanças engravidadas,
e com seus sonhos incautos –,

sempre resistindo
aos fortes ventos, às incontinentes chuvas
e às falesiadas erosões ao precário
caminho,

sempre tentando
alterar as vertigens de nossos desvarios
evitar a queda de nossos
voos;

até que (com a morte)
nos reine apenas a verdadeira paz do silêncio
e as insubstantivas, impronominais
e sublimes possibilidades
do apagamento.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

EXTRAVIADOS

... o que nos sobra,
além das espessas e espinhosas
matas fechadas,

quando nos perdemos
em meio a nossa própria floresta:
estranha e obscuramente
volatilizada?

ANGELUS

Não,
não me esqueço de quando
mãe me dizia, toda
sorridente:

sim, filho,
os anjos existem e são seres muito bons,
e são feitos de plena
luz;

e eu, intrigado, sempre
os procurava por entre os néons da cidade,
sem, contudo, jamais os ter
encontrado.

INEVITÁVEL DESTINO III

... de novo eles
(sempre, sempre, sempre
eles):

os semelhantes
e superbíssimos filhos
de Deus,

que vivem
a querer voar cada vez
mais alto,

escondendo algo
(vestidamente) entalado
nos rabos!

INEVITÁVEL DESTINO II

Um menino sonha
puerilmente e vive a dizer que, quando crescer,
vai ser um jogador
de futebol;

uma mulher sonha
acordada e vive a dizer que, um dia, ainda
quer conhecer o grande e eterno
amor de sua vida;

um poeta sonha,
na ponta da esferográfica, coisas
parecidas;

anjos não sonham,
festejam em delírios suas alvíssimas limpidezes,
seguros de não correrem
riscos

[de se perderem
por entre os descaminhos
do mundo];

algum demônio indefeso
tenta fugir de seu tênebro reflexo, abrigando-se
às próprias sombras dolorosamente
inalienáveis:

tudo e todos,
de alguma forma, sonham ou se mexem
(a seus aprazeres ou a seus alívios) pelos caminhos
e descaminhos desta
vida,

em meio
a atuações esplendidamente bem executadas,
a concupiscências febrilmente
ejaculadas

e a conspirações
(por todo lado) escondida e covardemente,
maquinadas.

INEVITÁVEL DESTINO

Um dia,
e isso é um fato (graças a Deus)
realmente inexorável,

ninguém mais
irá sequer se lembrar ou (pior) sequer ter algum
resquício memorial mínimo
de que

[sob o invisível
manto do apagamento]

já existiu,
em faustas, soberbas e dissimuladas atuações,
esse vão e vil
ser.

SER INSUFICIENTE A SI MESMO

... já não
bastam as fantasias
bastardas,

já não
bastam os sonhos idealizados
e depois naufragados,

ja não
bastam as porras
derramadas,

já não
bastasm as apresentações
aos teatros,

nem os muros,
nem as grades mais espessas
bastam mais
a algo:

este
é o ponto-chave, o lugar
de onde o sapiens faz suas escolhas
ruminadas!


ESPERAS

... sempre esperei

pelos voos
dos belos e nobres pássaros,

pelos sonhos
dos anjos sublimados,

pela linda
virgem nunca tocada,

pela quimera que coubesse
em minha casa,

pelos perdões
dos deuses idolatrados,

pelo infinito
que coubesse em minhas pequenas
polegadas:

agora,
com a vela quase se apagando,
espero pelo último trem,
e mais nada!

MISSAS E PROCISSÕES

... conta-me
da missa, da missa
sapiens,

da missa
que supões que eu não
entenda ou não
conheça;

alivias-te,
enquanto ainda és imensidão
em matéria:

do ser,
o cão saiba mais provavelmente
das sombras imanentes

do que
o que ele, em luzes vocálicas,
projeta!

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

CADA MOMENTO NOS É URGENTE

Ainda há de nos
haver um tempo mínimo
de paz e de amor,

abaixo
da lua plantada acima
na escuridão;

e nesse tempo,
quero aproveitar o máximo para
pegar em tua mão e te levar
comigo para um belo
sonho,

e lá te araçar, beijar-te,
aspirar o cheiro de teu corpo,
de teu perfume e de tua
perfeita xana

e chegar ao delírio
quantas vezes eu conseguir
sentindo o doce mel que te ti emana
em minha boca e em minha haste,

ao mesmo tempo
em que toco teus seios, em dulcíssimos
pecados, com tesão ora com a boca,
ora com a intensidade
de minha carne

e com a volúpia
e a insaciável fome
de minha negra
alma!

A VIRGINDADE UNIVERSAL NÃO PODE MAIS SER CONTEMPLADA PELO SER

... sim,
foram as sombras,

(com seus receios e medos,
com suas angústias e dores, e com suas ilusões
e esperanças silenciadas)

que me segredaram
sobre a afiada pureza da própria visão
perante o turvo reflexo
aos espelhos

e sobre a dissimulada
condição das luminescêncais que emanam
do que chamamos
de “Ser”.

ROSA NOTURNA

Noturna rosa de outrora,
por que não levaste contigo o cheiro
de teu corpo e de teu perfume
embora?

Borboleta mágica
que dominava até os mitos e os heróis
mais poderosos e que seduzia até
os deuses mais sublimes

deixando-os
bêbados de amor e de desejo
por que ao cão niilista também fez
voar em falsas glórias?

Lilith,
dominadora do averno e de paraísos,
onde frágeis anjos eram feitos
indefesas vítimas;

Ana, linda e pura Ana,
na outra ponta extrema
de sua bipolaridade
maldita,

por que
me ofucaste com a luz que carregavas
às mãos e aos olhos,

e me mataste
com as sombras que trazias
escondidas na bolsa que, pendurada às asas,
carregavas?

FRIAS E DOCES SOMBRAS

Sim,
vou ocupar teu coração,

beijar,
chupar e cavalgar em teu
belo e sensual corpo

e abrir
uma rachadura em tua
limpa alma,

de modo tão intenso
que até a uma flor do deserto
faça tremer,

quando eu a amar
por inteiro e por tempo incalculável
em minhas frias e doces
sombras!

domingo, 7 de janeiro de 2018

O BEIJO

… é deveras algo
maravilhoso e provoca efeitos
avassaladores, mesmo quando não se está
em local apropriado;

eu mesmo,
em mais jovem, quando conhecia
alguma moça e, numa mesa de bar
ou numa discoteca dançando músicas
românticas,

enquanto a beijava
peguei-me com incontidas ereções
inviáveis para o momento, em que o tesão
não devia ser exposto!

BRANCOS INCENDIÁRIOS

… o amor, os afetos,
os desejos confabulados às escondidas
com tons de prazeres e purezas
desmedidas

não são
monopólio dos anjos;
pelo contrário, também cabe
aos vermes e aos cães;

a única diferença
que vejo entre ambos é que os anjos,
quanto ao desejo, são mais promíscuos
e efêmeros!

QUEM DIZIA ME AMAR, ABANDONOU; E UMA FLOR SE ME RENOVOU

... ela apareceu
e me viu ali, perdido e estirado
em um deserto sem
sentido;

e, no início,
eu nem liguei, confesso,
mas, ocupando aos poucos
meus pensamentos.

aquecendo meu coração
e queimando meus sentidos,
ela se tornou como um brilho em meu
exílio,

como uma linda
lua cheia a clarear meus severos
escuros frios!

DESCOLORIMOS A MANHÃ E A TARDE

Quando Ana
e eu andamos juntos,
pegamo-nos nas mãos, abraçamo-nos,
beijamo-nos e nos amamos

em meio
a luzes e a sombras, em calmarias
e incontidas tempestades
e chuvas de fogo;

e tivemos tempo
para mudar as coisas e para
escolhermos nos amar sem as severidades
que nos impomos,

mas por uma década
não conseguimos sair totalmente
nem das chuvas nem
das sombras;

quanto eu tinha quarenta
e cinco, Ana se foi com seus quarenta
e dois anos, sem termos tido mais tempo
para absolutamente nada

porque o tarde demais
já havia nos punido, mesmo antes
de nos chegar a noite!

QUANDO TUDO ISSO ACABAR

... ao fim,
não restará na noite uma só
___ de minhas estrelas,

uma só
de minhas flores,
uma só de minhas amantes,
___ um sé de meus sonhos;

ao fim,
não me restará nem
___ a própria noite,

apagar-me-ei,
e comigo tudo que somei
ou que subtraí do sincero universo
o que verdadeiramente nunca
___ conheci!

sábado, 6 de janeiro de 2018

TEMPO DE VITÓRIA

Amanheceu
e passou.

Entardeceu
e passou.

Anoiteceu
e, em vez de dormirmos
em profunda entrega
ao sono eterno,

escolhemos
romper pela madrugada
nos amando: eu cuidado de ti,
e tu de mim!

ININTERRUPTO CAOS


DEUS E O SER


LOVE HURTS


A ORIGEM


TEMP(L)OS


TRANSCENDÊNCIA

Foi um sem-toque,
foi um sem-cheiro,
___ foi um sem-sentidos,

foi uma extavazação
da ilusão e do delírio que nunca me pôde
___ser entendido.

Era-me novo
e podia construir qualquer gênese
ainda completamente
___ inconspurca;

e assim foi meu primeiro
___ amor:

sem nexos,
sem-rostos, sem-palavras,
sem perniciosidades
___ e sem sexo,

com um pé
(e a asa prestes a se quebrar)
a pisar alguma improvável
___ eternidade.

Meu primeiro
e impossível amor foi
___ assim:

silentíssimo,
algo além, bem além do humano,
o quê, mais tarde, provar-se-ia
nunca poder ter
___ sido.