segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

AMIGO



Vê aquela mulher
sentada ali naquele canto, a ler
“A máquina do mundo”,
de Drummond,

e a ouvir
músicas,  com um fone
de ouvido?

Já foi minha namorada:

dizia me amar
todos os dias, e eu a enganava
com a maestria  de meus
verbos fodidos;

e ela acreditava,
enquanto eu ia (às ébrias madrugadas)
para rua, a me envolver com
meretrizes e ovelhas
nuas.

Agora,
quer saber o que é mais
trágico nesta história,
meu caro amigo?

Quando ela descobriu
e, com grande dor, veio chorando me dizer
que não dava mais, mas que me
perdoava por tudo,

foi que acordei
e descobri que eu também a amava,
e que só não me havia
dado conta disso

por causa de meu ego,
que me dava uma falsa segurança
de que ela estava a meus
pés.

Depois disso, já a procurei
novamente tantas vezes, sem ser atendido
em nenhuma delas,  que me feri
aos joelhos e à vaidade;

e o que é estranho,
meu amigo, é que sem ela, habitou-me
uma angústia e uma dor
tão grandes,

que se me morreram
as vontades (carnais e ególatras)
de correr atrás de cachorras
por aí,

e habitou-se-me
uma extrema necessidade de padecer
ao deserto: silente
e vazio.

Péricles Alves de Oliveira (Thor Menkent)

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